População negra brasileira confia menos na polícia, diz estudo

Um estudo publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apresenta dados sobre a violência contra negros na sociedade brasileira. Intitulado “Vidas Perdidas e Racismo no Brasil”, o estudo traz a relação existente entre a população negra e as forças policiais.

De acordo com os indicadores, 61,8 % dos que se autodenominam negros ou pardos e que foram vítimas de agressão disseram que não procuram a polícia. Desse grupo, 60,3% dos entrevistados alegaram não acreditar nas forças policiais e 60,7% disseram ter medo de represálias.

Entre os “não negros”, o número de pessoas que não procura a polícia é de 38,2%. Nesse universo, 39,7 disseram não acreditar nos policiais e 39,3 % relataram medo de represálias.

O estudo foi baseado no Censo Demográfico de 2010 e em informações do Ministério da Justiça, que traçou o número de detentos negros no sistema prisional brasileiro. Segundo o levantamento, as cadeias brasileiras abrigavam 252.796 negros e 169.975 não negros.

Homicídios

A Nota Técnica explica em quais Estados os homens e mulheres negros e não negros têm maior perda de expectativa de vida devido a violências letais: homicídios, suicídios e acidentes de transporte.

Segundo informações do Sistema de informações sobre Mortalidade (SIM/MS) e do Censo Demográfico do IBGE, de 2010, enquanto a taxa de homicídios de negros no Brasil é de 36 mortes por 100 mil negros, a mesma medida para os “não negros” é de 15,2. Essa razão de 2,4 negros para cada indivíduo de outra cor morto é muito mais ampla quando se analisa a vitimização por Unidades Federativas.

Em Alagoas, por exemplo, o número de morte de negros é 17,4 vezes maior do que a de não negros.

A conclusão do estudo, que analisou as condições socioeconômicas dos entrevistados, foi a de que o “negro é duplamente discriminado no Brasil, por sua situação socioeconômica e por sua cor de pele. Tais discriminações combinadas podem explicar a maior prevalência de homicídios de negros”.

Segundo a análise do Ipea, a condição socioeconômica dos afrodescendentes deriva não apenas de um processo de transmissão entre as gerações do baixo nível capital, como também pelos “efeitos culturais da ideologia do racismo no mercado de trabalho para negros”

“Parte da elite branca se esquiva em perceber o racismo ainda muito prevalente no país e, sobretudo, o racismo que mata. Confunde-se segregação racial com racismo – o primeiro é um caso particular do segundo. Mas os números são evidentes. Segundo nossos cálculos, mais de 39 mil pessoas negras são assassinadas todos os anos no Brasil, contra 16 mil indivíduos de todas as outras “raças”. Para além da extinção física, há milhares de mortes simbólicas por trás das perdas de oportunidades e de crescimento pessoal que muitos indivíduos sofrem, apenas pela sua cor de pele. São vidas perdidas em face do racismo no Brasil”, conclui o a pesquisa.

O estudo é de autoria do diretor de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e Democracia (Ipea), Daniel Cerqueira, e de Rodrigo Leandro de Moura, da Fundação Getulio Vargas (IBRE/FGV).

Fonte: Portal Terra