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Monitoramento sobre ministério confirma espionagem econômica, diz Dilma

Presidenta reage pelas redes sociais às denúncias divulgadas pelo Fantástico, classificadas como ‘inadmissíveis’, e reforça compromisso com novo marco civil para a internet dentro e fora do Brasil

A presidenta Dilma Rousseff reagiu nesta segunda (7) às novas denúncias de espionagem divulgadas na noite de ontem pelo Fantástico dizendo que os indícios de bisbilhotagem sobre o Ministério de Minas e Energia confirmam as “razões econômicas e estratégicas” por trás do monitoramento internacional de dados mantido pelos Estados Unidos e seus aliados. “A reportagem aponta para interesses canadenses na área de mineração”, concluiu, em referência ao país que abriga as maiores companhias mineiras do mundo. “O Itamaraty vai exigir explicações do Canadá.”

“Embora o Ministério de Minas e Energia tenha um bom sistema proteção de dados, determinei ao ministro Edison Lobão rigorosa avaliação e reforço da segurança”, continuou a presidenta, em sua conta no Twitter, @dilmabr, reativada há pouco mais de uma semana, no último 27 de setembro. “Isso é inadmissível entre países que pretendem ser parceiros. Repudiamos a guerra cibernética. É urgente que os Estados Unidos e seus aliados encerrem suas ações de espionagem de uma vez por todas.”

“Essa espionagem não é algo desejável. Ao contrário, é muito indesejável”, complementou o vice-presidente Michel Temer à Agência Efe, em Lisboa, onde participou do lançamento de um livro comemorativo do Ano de Portugal no Brasil e do Ano do Brasil em Portugal. “O Brasil já deu uma palavra sobre este assunto e esperamos que os organismos internacionais cuidem do tema com a seriedade que merece. Brasil, Estados Unidos e Canadá sempre tiveram as melhores relações. Resta apenas limar pequenas arestas para que não haja problemas nessa relação.”

Também hoje, o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo Machado, convocou o embaixador do Canadá no Brasil, Jamal Khokhar, para prestar esclarecimentos sobre as denúncias. Em nota divulgada pelo Itamaraty, o ministro manifesta a “indignação” do governo brasileiro e classifica a ação de inaceitável e grave. “O chanceler brasileiro manifestou ao embaixador canadense o repúdio do governo a essa grave e inaceitável violação da soberania nacional e dos direitos de pessoas e de empresas.”

Reincidência

É a terceira vez em cinco semanas que o programa dominical da Rede Globo publica denúncias exclusivas do repórter norte-americano radicado no Brasil Glenn Greenwald sobre a bisbilhotagem internacional das comunicações do governo brasileiro. O jornalista teve acesso privilegiado aos documentos secretos vazados pelo técnico de informática Edward Snowden, ex-funcionário de uma empresa que presta serviços à Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos.

A novidade trazida pelo Fantástico, ontem, e que já estava sugerida em revelações anteriores publicadas por Greenwald em seu blogue no jornal britânico The Guardian, é que os Estados Unidos compartilham os frutos da espionagem com seus aliados mais próximos: Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia e Canadá. No mundo da inteligência, os cinco países são conhecidos como Five Eyes (Cinco Olhos) devido à sua capacidade de monitoramento de dados.

“Tudo indica que os dados do NSA são acessados pelos cinco governos e pelas milhares de empresas prestadoras de serviços com amplo acesso a eles”, protestou Dilma Rousseff, também pelo Twitter. “A espionagem atenta contra a soberania das nações e a privacidade das pessoas e das empresas.” Ontem, a presidenta havia anunciado pela rede social que enviará à ONU uma proposta de marco civil para a governança multilateral da internet assim que o Congresso brasileiro aprovar um projeto nacional a ser apresentado pelo governo nas próximas semanas.

De acordo com o programa da Globo, a Agência Canadense de Segurança em Comunicação (CSEC) conseguiu invadir a rede de computadores “mais inviolável” do governo brasileiro: os sistemas do Ministério de Minas e Energia, que armazenam informações confidenciais sobre as reservas minerais brasileiras, além de viabilizar conversas estratégicas do ministro Edison Lobão e outras autoridades da pasta.

Apesar de toda proteção, porém, os canadenses e norte-americanos conseguiram mapear ligações que partiram do ministério para outros países, organismos internacionais e embaixadas do Brasil no exterior. A acurácia da espionagem é tanta que até mesmo o modelo dos telefones celulares utilizados pelo governo são informados pelos documentos vazados por Edward Snowden.

Diplomacia

Depois da primeira leva de documentos sobre o Brasil, divulgadas pelo jornal O Globo no início de agosto, duas reportagens publicadas anteriormente pelo Fantástico haviam jogado evidências muito fortes de que a espionagem estava atingindo o governo brasileiro – e não apenas cidadãos e empresas, como sugeriram as primeiras revelações. Então, Greenwald já alertava que, sob a justificativa de zelar pela segurança do planeta, os Estados Unidos estavam  coletando informações confidenciais de outros países para obter vantagens comerciais.

As reportagens balançaram as relações entre Brasília e Washington de tal maneira que a presidenta Dilma Rousseff cancelou a visita oficial que faria ao colega Barack Obama no final do mês. Antes de tomar a decisão, simbólica, os dois chefes de Estado mantiveram encontro bilateral em São Petersburgo, na Rússia, durante a Cúpula do G20. Na ocasião, Dilma externou a Obama sua irritação com a espionagem, pediu que os Estados Unidos interrompessem imediatamente o monitoramento e exigiu desculpas. O norte-americano se comprometeu a resolver pessoalmente o entrevero, mas nada aconteceu.

As revelações que mais irritaram o governo brasileiro foram ao ar em dois domingos consecutivos: 1º e 8 de setembro. Na primeira reportagem, Greenwald afirma que a NSA espionou comunicações pessoais da presidenta com seus assessores mais próximos. Na segunda, documentos mostraram que informações confidenciais produzidas pela estatal Petrobras haviam sido monitoradas pela agência norte-americana. As revelações foram divulgadas às vésperas do leilão do campo de Libra do pré-sal e podem ter motivado petroleiras multinacionais a desistirem da concorrência.

A espionagem sem limites – e a recusa dos Estados Unidos em responder aos questionamentos do Brasil sobre o assunto – foram os principais motores do discurso proferido por Dilma Rousseff na 68ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, no último dia 24 de setembro. A presidenta relatou à comunidade internacional que  dados pessoais de cidadãos e informações empresariais de “alto valor econômico e estratégico” estiveram na mira do monitoramento norte-americano. E fez duras críticas a Washington. Obama estava no plenário, mas, quando subiu ao palanque, preferiu dedicar sua intervenção à guerra civil na Síria.

Fonte: Rede Brasil Atual

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